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Irei retratar aqui de alguns itens que se usavam juntamente com o vestuário, como tipos de cobertura de cabeça, capas, bolsas, sapatos, cintos, etc. Será impossível falar deles todos, mas falarei o suficiente para que a imagem completa duma pessoa da época fique formada.

Véus e Wimples
Artigo feminino que tapava a cabeça e que substituía a coifa, muito usado por todas as classes sociais em todos os séculos.
Tinha sempre uma forma arredondada ou oval e podia ter variados comprimentos, de acordo com a moda e/ou a classe social. Normalmente era branco ou similar (nunca encontrei imagens de véus com cores).
Podemos encontrar ao longo de evolução da moda medieval vários exemplos do uso que se deu ao véu: Desde o século XIII quando caía naturalmente da cabeça preso por alfinetes a um fillet ou atado à cabeça com uma fita, passando por cair da nuca preso por uma tiara no século XIV, até ser colocado no topo de um hennin no século XV.
A partir dos meados do século XIV os véus adquiriram folhos nas extremidade que emoldura a cara.
O wimple (inglês) é simplesmente um véu que se usa debaixo do queixo e que prende no topo da cabeça ou no fillet ou cruzado na cabeça e depois preso com uma fita ou tiara. Levava, é claro, um véu por cima.
Em meados do século XIV este wimple levava pregas feitas com goma. Mais tarde passou a ser usado principalmente por viúvas ou freiras.

Biblia de Maciejowski, A mulher de Manoah, 1250. Esta mulher está a usar um véu e um wimple.

Detalhe de miniatura do livro de salmos de Lutrell, 1325-35. Esta mulher está a usar um véu preso atrás da cabeça com uma tiara e outros dois sobre o penteado dos lados da cabeça.

Fillets e barbettes
Fillet é uma tira de pano que se prende à volta da cabeça e que se ata na nuca com fitas, como se fosse uma bandolette e ao qual depois se prende o véu. Muito útil para impedir que o cabelo venha para a cara. Deverá ser em branco, já que o véu também o é.
Barbette é uma tira de pano branco que dá volta à cabeça, passando por debaixo do queixo. Era mais estreito debaixo do queixo e mais largo nos ouvidos.
Igualmente em branco e igualmente se prendia os véus a este. Muito usado na moda dos século XII e XIII.
O fillet também podia ser uma espécie de toucado muito na moda no século XIII, que mais se assemelhava a uma coroa feita em pano branco. Provinha, naturalmente, da evolução de um fillet mais estreito sem método de fecho do acima descrito e também usado da mesma maneira, em conjunto com uma barbette, passando de detrás da cabeça para a frente da testa.

Codex Manesse, século XIV. As senhoras que assistem ao torneiro usam os tais fillets em stilo de coroa.

Túmulo de Leonor de Aquitânia e Henrique II. Vê-se bem a barbette esculpida no túmulo.


Redes
Também conhecidos por crespines ou crespinettes em francês.
Serviam para prender o cabelo e podiam vir em ínumeras cores e com variados enfeites e mesmo forrados com pano por dentro, embora as mais apreciadas eram sempre os em tons brancos.
A rede para o cabelo adquiriu várias interpretações ao longo dos séculos, sendo mesmo usados debaixo dos fillets do século XIII e dos toucados do século XV. Mas as formas mais comuns eram: Usado só; ou com uma fita à volta da cabeça; ou com um véu e fita por cima.
Foi usado por todas as classes sociais.
Por sua vez, havia redes chamadas crespinettes que cobriam penteados dos lados da cabeça, algo muito usado no século XIII e que em modas posteriores foram substituídas por peças mais rígidas ou mesmo feito em metal. Óbviamente só usadoas pela Nobreza.

Detalhe do livro de salmos de Peterborough, 1300. A maior parte destas mulheres estão a usar redes no cabelo.

Hennins e bicorniums
Eram toucados para senhoras da alta Nobreza. Eram chapéus bastante altos muito na moda no século XV.
O hennin tradicional tem um formato cónico, que faz lembrar muito os contos de fadas, e do qual pendia um ou mais véus. Já no final deste século o hennin passou para metade do tamanho, vendo-se o bico deste cone desaparecer. 
Podiam, dependendo da moda, ser em cores diferentes, cobertos por véus ou não, levar arames igualmente cobertos com véus, ou simplesmente serem pretos e cobertos com veludo da mesma cor (muito na moda na Inglaterra).
Já o bicornium, tal como o nome indica, tinha dois bicos, mas em formato oval, e à semelhança do hennin tradicional também era alto. A única diferença é que se separava em dois.
Este bicornium evoluíu para diferentes interpretações, desde o que era mais separado ao que era mais alto e mesmo ao que tinha arames cobertos com véus.

Na imagem da esquerda temos o detalhe de um quadro desenhado por Hans Holbein, século XV. Aqui vemos uma jovem com o típico hennin. A moda seria usar-se o cabelo dentro do toucado, mas esta rapariga decidiu mostrar as suas tranças.
Na imagem da direita temos o detalhe de quadro representando Christine de Pisan a oferecer um livro a rainha Isabeu, século XV. Neste exemplo temos dois dos tpos de bicorniums existentes.

Na imagem da esquerda temos uma miniatura do livro de horas de Anne de Bretagne, século XV. Na imagem da esquerda temos o retrato da Dama Rogier van der Heyden, 1460.
Em ambos os casos vemos hennins mais curtos, mas um é todo preto com veludo, enquanto que o outro é um lindo toucado dourado com um véu.


Barretes e chapéus
Os chapéus e barretes, masculinos ou femininos, sempre foram usados ao longo de toda a Idade Média, mas se no início estavm puramente ligados a questões sociais (por exemplo a eclesiástica), profissionais (lembrem-se do chapéu usado por arqueiros e caçadores) e climatéricas (os chapeús eram feitos em feltro de lã, logo impermeáveis), nos finais do século XIV esta associação se dilui um pouco e os chapéus na Nobreza assumem uma característica puramente de moda.
Alguns chapéus masculinos começaram mesmo a ser usados pelas mulhers em determinados períodos. A variedade era imensa e dependia, claro está, pelo século ou moda.
Por seu lado, quando falamos em barretes femininos, há poucos exemplos, mais concretamente um que evoluíu pouco e somente usado de meados do século XIV até finais do XV. Como dito anteriormente, o véu era rei.
Um pormenor curioso acerca do uso de chapéus: Não eliminou o uso da coifa, nem do véu. Usava-se tanto um como o outro debaixo de um chapéu ou barrete.
E também o chapeirão foi incluído nesta categoria. O chapeirão, quando fechado à frente, pode ser enrolado pela abertura da cara e formar um barrete. Daqui para um chapéu sólido foi um pulinho. Esta moda de enrolar o chapeirão sempre existiu, mas foi no século XV que assumiu o formato de chapéu que nós tanto associamos a um Infante Dom Henrique.

De cima para baixo: As imagens 1, 2, 4, 5, 6 e 8 são todas do século XV e mostram a variedade de chapéus e barretes existentes.
A imagem 3 é de inícios do século XIV e mostra o barrete mais comum feito em feltro de lã.
Na imagem 7 um exemplo perfeito de um chapeirão enroldado, que passa para chapéu no século XV (ver imagem 1 e 6).
Na imagem 8 vemos uma coifa a ser usada debixo de um chapéu.
As últimas duas imagens demonstram um chapéu de peregrino e um de palha.


Na imagem do meio vemos os tais barretes femininos. Aqui um dos meados do século XIV e que no século seguito evoluiu para um com um aba dobrada na frente.
Na 1ª imagem uma camponesa a usar um chapéu por cima do véu e na última imagem duas mulheres a se espancarem com chapeirões masculinos.

Chapeirão (ou capeirão)
Do francês, chaperon. É a cobertura contra o frio e a chuva por excelência e é feito sempre em lã porque esta tem propriedades impermeáveis. Houve mudanças na versão feminina nos meados do século XIV e para os homens transformou-se em chapéu, como foi dito no tópico correspondente, mas essencialmente o chapeirão permaneceu igual ao longo dos séculos, principalmente para as classes mais baixas.
Era feito a partir de duas peças iguais e podia:
  • ser aberto ou fechado à frente,
  • levar duas nesgas por cima dos ombros,
  • ser comprido ou curto (o tamanho mais tradicional era sempre até às omoplatas),
  • ter a ponta curta ou comprida (algumas chegavam mesmo ao chão),
  • ter as extremidades recortadas em ameia, em folha de bolota, etc (mas estas normalmente estavam reservadas a certas modas dependendo dos séculos ou a classes sociais),
  • levar sinos ou berloques na extremidade da ponta,
  • ser feito em duas cores diferentes (quer na frente e quer no verso),
  • ser feito com forro,
  • ter botões em pano (conforme os séculos),
  • ser fechado com uma fíbula.
Como visto, era uma peça muito versátil e ao qual associamos a imagem dos monges que também usavam um chapeirão por cima do seu hábito.
(ver página dos moldes)

Livro de horas da Flandres, 1460. Dois pastores envergando capa e chapeirão.


Detalhe de miniatura do Le Livre d'Heures de Charles d'Agoulême, século XV. Mulher com um chapeirão da época.

Capa
Mais uma peça bastante útil contra o frio e a chuva porque era feita dos mesmo material impermeável que os chapeirões – lã.
Dependendo das classes sociais, as capa levava mais ou menos pano. Tinha normalmente uma forma arredondada, é claro, mais ou menos em semi-círculo, mas pessoas de classes mais elevadas usavam um semi-círculo perfeito e monarcas um círculo inteiro.
E conforme as modas o método de fecho era diferente. O mais tradicional eram duas fitas ou uma fíbula.

Codex Manesse, século XIV. Aqui temos exemplos de capas ricas e a maneira muito na moda de fecho.

Garde-corp
Mais uma peça que protege contra o frio e a chuva, mas que ao contrário do chapeirão e da capa, tapa o corpo quase por completo, da cabeça às canelas. Foi usado por todas as classes sociais e em todo a duração da Idade Média.
É como se fosse um vestido com capuz e com mangas que permitem retirar os braços (tal como acontecia com algumas opas do século XV).
Também é feito em lã, na maior parte dos casos com forro, já que era para impedir que o frio passasse.

Codex Manesse, século XIV. Este homem tem vestido um garde-corp.


Cintos
Os cintos primórdiamente para que outros objectos, como bolsas e similares, fossem presos a eles. Tinham como igual propósito definir a cintura. De uma cintura descida nos século XII, XIII e inícios de XIV, passou.se para uma cintura mais natural e, posteriormente para as senhoras, uma cintura alta no século XV.
O seu uso dependendia da moda, é claro, e das classes sociais como poderam constatar na Introdução. Os mais comuns eram feitos em couro, mas também havia-os em fibras naturais como a lã ou outros, ou tecido.

Temos vários exemplos de cintos usados ao longo dos últimos 5 séculos da Idade Média. Da esquerda para a direita: Século XV, cintos de couro ornados com peças metálicas e um cinto em pano (tal como na figura 4 podemos ver como a cintura era alta para as senhoras); Século XIII, a cintura era baixa; na imagem 3 temos um cinto dos finais do século XIV em couro com fecho metálico; Por último,para as classes trabalhadoras o cinto funcionava como meio de arregaçar a roupa.


Bolsas e sacolas
Existem em vários estilos e, como já o havia sido mencionado anteriormente, é no último século e meio surgem que surgem esses variados estilos. As mulheres usavam uma bolsa debaixo da roupa, por cima da saia, talvez por questões de segurança. Enquanto que os homens a usavam por fora.
Eram sempre presos aos cintos e eram feitos em variados materiais como o couro e tecido.
As sacolas eram como se vê na imagem abaixo, em tecido ou em lã, e eram usadas para transportar um farnel.


Várias formas de bolsas, masculinas e femininas. No caso das senhoras, as bolsas eram usadas, maioritáriamente, por cima da saia; ficavam tapadas pelas roupas usadas por cima desta. Em alguns casos as bolsas chegavam até ao chão para que não fosse preciso levantar tanto as vestes.
A seguir 2 exemplos de bolsas masculinas, sendo a segunda típica do século XV.
Em baixo temos uma bolsa para dinheiro do século XV. Tinha a particularidade de ter uma pequena armação metálica para fecho.
Por último, 3 exemplos de sacolas usadas por 3 peregrinos.


Sapatos
Nos séculos XII, XIII e XIV os sapatos eram, de maneira geral, iguais para todas as classes e para quem os podia comprar. É só no século XV que eles se tornam cada vez mais pontiagudos e chegam, na Nobreza, a chegar ao ridículo de precisarem de um cordel para suster a ponta extremamente exagerada.
É em meados do século XIV que surgem os sapatos com fivela. Até então o sapato era ou sem método de apertar ou era apertado com cordel.
Como o couro não era algo acessível a todas as bolsas, algumas pessoas andavam descalças.
No caso das crianças, como o pé ainda estava em crescimento, optava-se por poupar o couro deixando-as ou andar descalças ou então usava-se um molde mais ou menos oval em couro e sem sola que se ia adapatando ao longo do crescimento do pé da criança e que se atava com cordel ao longo de vários furos que uniam o molde na barriga do mesmo pé.

Nestas imagens coloquei 4 exemplos de sapatos para retratar o uso e a evolução destes. Os sapatos usados pelo camponês são os mais comuns em todos os séculos, enquanto que os da imagem ao lado são apenas usados pela moda Nobre do século XV. Em baixo temos botas, que são usadas por viajantes ou cavaleiros apenas, para não sujar tanto as calças com pó e lama. Ao lado, sapatos com passadeira que entram em moda em meados do século XIV tanto para homens como para mulheres.