ALGUNS PRECONCEITOS

Les Très Riche Heures du Duc de Berry, meses de Outubro (agricultor) e Janeiro (banquete), século XV
Nestas duas miniaturas observam-se bem as diferenças de vestuário entre o Povo e a Nobreza no mesmo século. Vemos também as calças dos nobres que não são collants.

Ao contrário do que muita gente pensa, não havia corpetes, cintas ou espartilhos: A ilusão que temos do uso de corpetes na Idade Média é falsa. “Corpetes & Compª” só surgem no período renascentista, ou seja, já fora da Idade Média, ou seja, inicio da Idade Moderna. Esta ilusão do uso de corpete que temos não vem mais do que do facto da Nobreza usar a roupa extremamente cingida ao corpo, em especial as mulheres, para realçarem as curvas, porque não necessitavam de fazer grandes movimentos com o corpo, já que não trabalhavam.O que houve de mais próximo a um corpete foi, e durante uma pequena fase da moda, um pedaço de pano largo em jeito de cinta usado pelas senhoras mais nobres durante o século XII e inícios do XIII para realçar a cintura.


Também não havia saias e camisas separadas.Na Idade Média este conceito não exisitia: A roupa feminina era constituída por uma só peça, um vestido, e esse sim, era conhecido por saia. Só no Renascimento surge o conceito de separar o vestuário em duas partes. Ora, se não havia saias, como nós as conhecemos hoje em dia, também não havia camisa para tapar o busto. Era o tal vestido que tapava tudo, no caso das mulheres. No caso dos homens havia sim uma camisa, mas era, como se pode vêr mais à frente, sem botões, mangas ou colarinho exagerados. Este conceito vem da moda do século XVII/XVIII e da imagem que nós temos dos mosqueteiros franceses.


Em relação à ideia de que os homens usavam collants, devmos salientar ferozmente que é falsa. Da mesma maneira que as senhoras moldavam a roupa ao corpo, também os senhores Nobres o faziam, mas em ralção às calças. Elas eram apertadas ao máximo às pernas, dando a ilusão de ser uma segunda pele. É claro que quando iam montar tinham que vestir calças mais largas.


Os próximos pontos não falam própriamente sobre o vestuário, mas são igualmente ideias erradas sobre a Idade Média:


A higiéne neste período histórico podia não ser tão grande como hoje em dia, mas não podemos ignorar o facto que depois de um dia de trabalho no campo ou nas lojas uma pessoa comum chegava a casa e limpava (no mínimo!!!) as mãos para ir comer. Somente os indigentes e pedintes, aqueles que viviam nas ruas, sem tecto e doentes é que não tinham acesso às condições básicas de vida.


Outra ideia errónea é que a Idade Média era uma espécie de “Faroeste Selvagem” em que quem tinha espada andava o dia todo com ela pendurada à cintura. Não se podia estar mais longe da verdade. Aliás, era visto com maus olhos quem o fizesse e provávelmente essa pessoa seria presa por suspeitas de querer provocar danos à localidade onde estivesse ou a alguém que lá habitasse. Somente quem era pago para manter a ordem é que tinha autorização, lógicamente, para usar peças bélicas. Só em tempo de guerra é que quem ia para a guerra se vestia para a guerra. Em tempo de paz, roupa civil.É no século XV que surge a moda de Nobres e Burgueses ricos andarem com uma adaga à cintura, mas nestes casos assim acontecia porque estas classes assim o podiam fazer. Na continuidade deste preconceito, também não havia a profissão militar como a conhecemos hoje, nem batalhões inteiros vestidos com as mesmas cores à disposição 24 horas por dia. Quem tinha armaduras eram os Nobres e os Burgueses ricos e ia para a guerra quem assim fosse mandado. Quem servisse um senhor e tivesse direitos e títulos para tal é que vestia as cores do estandarte desse mesmo senhor. Em tempos de paz só alguns senhores é que tinham um pequeno número de soldados ao seu dispôr, os quais eram pagos e mantidos para os proteger.


Por último, e já que estamos a falar sobre idumentária medieval, convém corrigir este pequeno, mas muito importante ponto: As peças de armadura ou mesmo as cotas de malha (louriga ou lourigão) não eram colocadas sobre a pele nua e sem protecção, óbviamente. Elas eram colocadas por cima de um gambezon (uma espécie de casaco alcochoado), em português perponto, que não só permitia conforto e protecção da pele, como também servia para prender as várias peças de uma armadura nele. Igualmente para os elmos. Estes eram usados por cima de uma coifa alcochoada, dita militar. Assim que uma batalha ou a guerra terminava os militares tiravam este perponto e debaixo se revelavam as suas roupas civis (calças e camisa). Também haviam peças alcochoadas para as pernas.


Espero que ao lerem esta página, já fiquem com uma ideia mais apróximada de como era o vestuário na Idade Média e que, assim, se sintam preparados para continuar a aprender.

Biblia de Maciejowski, Paris, 1250. O casaco branco que o soldado enverga nada mais é que um perponto sobre o qual vinham todas as peças metálicas. Do mesmo modo, debaixo dos cascos e dos elmos dos outros soldados vemos coifas almofadadas, ditas militares, que servem o mesmo propósito que os perpontos.