GUARDA-CÓS FEMININO

As peças de roupa que se seguem começaram a ser conhecidas como guarda-cós, a 3ª e última camada de roupa, as mais exterior e, por conseguinte, a mais visível. Mas com a evolução da moda ao longo dos séculos a sua terminologia mudou, contudo sempre dentro da linha do surcôt (sobre -cós em francês). Muitas das peças são características das classes mais altas, nomeadamente a Burguesia citadina e a Nobreza, mas também há peças usadas pelas classes trabalhadoras, que também usava como 3º camada de roupa variadas formas de aventais para não sujar a saia. É claro que, e como foi dito anteriormente, as roupas femininas eram constituídas por muito mais camadas que as masculinas. Os homens tinham a vantagem de só usarem a camisa por debaixo desta última camada de vestuário.
Iremos apresentar os “guarda-cós” usados na Idade Média por ordem cronológica. 
Contudo tenho que ressalvar que mesmo em linha temporal, não devemos analisar a evolução da moda de maneira tão rígida. O corte desta evolução em diferentes fases não deve ser tão radicalmente interpretada, querendo isto dizer que o uso de um determinado tipo de vestuário pode, e foi mesmo, usado fora do auge da sua moda e dentro da moda de outras peças de vestuário. As imagens históricas colocadas no site comprovam-no.

Esclavine
A esclavine (“pequena escrava” em francês) sempre foi usada desde os tempos egípcios até aos finais do século XII, passando pelos Saxões e o tempo das Cruzadas e que não desapareceu completamente, podendo ainda encontrá-la no final do século XIII na Alemanha.
Era uma peça de roupa que tinha as mangas, que caíam só sobre os ombros, em meia-lua (também chamado “em borboleta”) e que podia ser tanto aberta como fechada dos lados. O corte era em linha diagonal desde os ombros até aos pés para aproveitar a largura do pano. A cava das mangas costumava ser larga. Era uma peça usada por todas as classes.
Vemos através da esclavine a evolução para o pelote descrito abaixo.Saem as mangas em “borboleta” e ficam as cavas abertas.

http://www.siue.edu/COSTUMES/PLATE17CX.HTML
(neste link do livro de Braun&Schneider, a mulher à direita da imagem está a usar uma esclavine aberta dos lados)

Bliôt
Ou Brial em português, usado nos séculos XII e principios de XIII. Vê-se bem a influências dos séculos anteriores da Idade Média nesta peça de vestuário. Contudo, é apenas usado pela Nobreza, porque se cingia a cintura feminina com uma faixa de tecido ricamente bordada e as mangas eram longas, acabando ou se arrastando pelo chão, e em cloche, ou seja, bastante abertas.
O bliôt era, normalmente, fechado ou dos lados ou atrás com um cordão para demarcar, mais ainda, a cintura.
Não se sabe ao certo se por debaixo deste brial se usava apenas uma camisa, se uma saia ou se apenas umas mangas falsas. As opiniões divergem. Provavelmente se usou todas as 3 formas.
Mais uma vez, o corte é sempre geométrico e são sempre usadas as tais nesgas para dar mais roda.

http://www.siue.edu/COSTUMES/PLATE15BX.HTML
(neste link do livro de Braun&Schneider, podemos vêr senhoras da corte alemã, as duas mais à esquerda, usarem bliôts)

Pelote
Vestido sem mangas que cobre o corpo que surge em finais do século XIII e vai até meados do século XIV. Foi assumindo variadas formas com o passar do tempo: no século XIII tinha as cavas das mangas junto às axilas, daqui passou para uma cava bastante aberta para demonstrar as ancas e a cintura e deste passou, nos finais do século XIV, para uma versão cuja frente tinha apenas uma faixa estreita que deixava o peito quase todo destapado.
(vêr página dos moldes)

Miniatura do Codex Manesse, século XIV, pelotes feminino e masculino da época.


As cinco heroínas, fresco do castelo de La Manta em Itália, 1420. A segunda mulher da direita está a usar um típico pelote dos finais do século XIV.

 
Cotehardie
Vestido que surge em meados do século XIV e que normalmente é caracterizado por ter meia manga, mas a Nobreza usva uma versão que levava umas mangas abertas ou então pendurava fitas ou guizo das ditas meias mangas. Podia, ou não, levar botões à frente.
Por sua vez, as classes trabalhadoras só usavam a cotehardie com meia manga, que trabalhava usando esta peça de vestuário directamente sobre a camisa.
É com estas que surge um molde de costura mais moderno, em que desaparecem as figuras geométricas básicas e surgem técnicas como as cavas das mangas redondas. (vêr página dos moldes)

Miniatura de Christine de Pisane, século XV. Uma cotehardie usada pela Nobreza.

Le Trés Riches Heures du Duc de Berry, século XV, Abril. Uma cotehardie preta com fitas sobre uma saia azul, ao fundo.

Le Trés Riches Heures du Duc de Berry, século XV, Junho. Mulheres trabalhando no campo envergando as suas cotehardies.

Outros surcôts
Surgem nos finais do século XIV vários estilos de “guarda-cós” que são commumente chamados de surcôts, com explicado anteriormente. Não têm nome específico, mas são dignos de serem mencionados. Eram aquilo que hoje chamaríamos vestidos, havendo alguns com bolsos, outros debruados com peles de animais, outros com mangas muito ao género dos século XII e XIII, sendo substituídos nas classes mais nobres pelas opas.
Tacuinum Sanitatis, Abricots, 1385. Duas senhoras usando um estilo de surcôts da época.

Opas
Estes já são vestidos inteiros, de mangas compridas, também conhecidos por roupas, caracteristicamente do século XV, de grande envergadura. São conhecidos por levarem muito pano e estão associados a alta Nobreza. Houve-os de variados estilos, ou com pregas à frente, ou com decote fundo, ou com mangas distintamente exageradas, ou com guizos, ou com berloques, ou com panos a imitar penas, debruados com peles de animais, etc.

Detalhe de um fresco do castelo de La Manta em Itália, 1420. Um dos estilos de opa do século XV.


Regresso de Isabelle de France à Inglaterra, por Jean Fouquet, século XV. Vemos as senhoras com opas. Estas serão aquelas opas que mais se associam ao século XV.

Há que ressalvar esta nota importante: Mangas falsas.
As mangas falsas sempre estiveram em uso em todas as classes sociais e foram usadas em quase todas as modas. São mangas perfeitas, mas que não vêm costuradas ao resto da roupa, daí se chamarem falsas. Eram presas por alfinetes à camada exterior do vestuário.
Em séculos anteriores, como por exemplo com o uso do brial, as mangas não tinham botões, mas a partir dos meados do século XIV, a introdução dos botões no vestuário é clara e, logo, nas mangas falsas também.
É claro que com um pelote estas não fazem sentido, mas com as cotehardies as mangas falsas entram de novo em moda.
Permitiam, não só, poupar pano, como também gastar menos dinheiro num tecido rico que desse alegria a esta mangas falsa, como igualmente menos camadas de roupa e retirá-las quando se trabalhava.