GUARDA-CÓS MASCULINO

As peças de roupa que se seguem começaram a ser conhecidas como guarda-cós, a 3ª e última camada de roupa, as mais exterior e, por conseguinte, a mais visível. Mas com a evolução da moda ao longo dos séculos a sua terminologia mudou, contudo sempre dentro da linha do surcot (sobre -cós em francês). Muitas das peças são características das classes mais altas, nomeadamente a Burguesia citadina e a Nobreza, mas também há peças usadas pelas classes trabalhadoras, que também usava como 3º camada de roupa variadas formas de aventais para não sujar a saia. É claro que, e como foi dito anteriormente, as roupas femininas eram constituídas por muito mais camadas que as masculinas. Os homens tinham a vantagem de só usarem a camisa por debaixo desta última camada de vestuário.
Iremos apresentar os “guarda-cós” usados na Idade Média por ordem cronológica. Contudo tenho que ressalvar que mesmo em linha temporal, não devemos analisar a evolução da moda de maneira tão rígida. O corte desta evolução em diferentes fases não deve ser tão radicalmente interpretada, querendo isto dizer que o uso de um determinado tipo de vestuário pode, e foi mesmo, usado fora do auge da sua moda e dentro da moda de outras peças de vestuário. As imagens históricas colocadas no site comprovam-no.

Saio/Túnica
Tanto pode ser considerado como 2ª ou como 3ª camada de roupa, já que o homem tem a vantagem de poder usar menos roupa que a mulher.
Esta veste foi sempre usada, principalmente pelas classes trabalhadoras, e, de acordo como o século, era mais comprida ou mais curta.
Para melhor descrição desta peça de idumentária, por favor leiam a parte correspondente na página “Cós Masculino”.
(ver página dos moldes)

Pelote/Garnacha
Existem 2 tipos, usados nos séculos XII e XIII, e ambos podem ser considerados pelotes masculinos.
Um, a que iremos chamar garnacha, nada mais é do que o pelote feminino usado no século XIII, tendo a única diferença de levar uma racha a frente para permitir o homem de montar a cavalo. Era da mesma maneira comprido até ao chão como o pelote usado pelas mulheres. Nas imagens históricas vêm-se os cavaleiros e os monarcas a usar este tipo de veste, por isso podemos assumir que só era usado por estas classes sociais e não outras.
O outro pelote, que não a garnacha, era uma peça muito na moda na alta Nobreza, principalmente na Peninsula Ibérica (os registos históricos assim o indicam), e tinha elementos tanto da esclavine e do pelote descritos nos guarda-cós feminino.Tinha as tais mangas em meia-lua, cavas bem abertas até à cintura/ancas, mas não era tão comprido. Aliás, só vinha até abaixo do jeolho, do meio da canela para cima.
Tanto a garnacha como o pleote eram usados em cima dos saios/túnicas: a garnacha com um saio comprido, até aos tornozelos e o pelote já com um saio mais curto, até ao meio da canela ou até ao joelho.

Codex Manesse, século XIV. Vemos tanto a mulher como o homem usarem pelotes, mas no caso masculino (garnachas), como dito anteriormente, o pelote tem uma racha.

Detalhe das Cantigas de Santa Maria, século XIII. Nesta imagem os três músicos envergam o tal pelote mais decotado e muito em voga nesta época na Península Ibérica.


Cotehradies
A versão masculina do acima descrito para as mulheres era em forma de casaco. Tinha os mesmas típicas mangas e era fechado de cima a abaixo com botões, ou em pano ou em metal. Surge na mesma época, meados do século XIV e daqui para a frente estas vestes substituem as túnicas na moda para algumas classes. A Burguesia rica e citadina adoptou este género de vestuário masculino, tal como toda a moda daqui para adiante.Havia, contudo, opas que se assemelhavam mais a gibões, pois eram curtos, mas em tudo iguais às opas compridas. O mesmo acontecia com algumas cotehardies que, em vez de serem curtas, eram a sua versão longa. Deixo ao leitor a decisão de colocar estas vestes quer numa, quer noutra classificação.
NOTA: Não confundir os quadros do século XV que mostram camponeses a usar doublets com a realidade da época! Devemos pensar nestes quadros como uma espécie de propaganda ou publicidade.

Tacuinum Sanitatis, 1385. O músico da frente enverga um dos estilos de cotehardie.


Gibanete/Gibão
Outro género de casaco (em francês Doublet)que surge no final do século XIV e que sofreu uma ligeira evolução no século seguinte. O gibanete era um “casaco”, fechado com um sistema de cordel e que alargava a partir da cintura (ver página dos moldes), enquanto que o gibão tinha as mangas armadas nos ombros (em “pouf”), fechado da mesma maneira, mas em que as abas da frente não se encontravam (ou seja, formava um abertura em triângulo invertido à frente que era cruzado pelo cordão usado no fecho).
É a partir daqui que se usa estes “casacos” simplesmente por cima da camisa, fazendo desaparecer o saio/túnica para estas classes sociais.

(Imagem retirada de Braun&Schneider. O homem à direita enverga um gibante, que neste caso é fechado com botões.)


Detalhe de fresco da capela de St. Sebastian, França, Os 3 arqueiros, A vida de St. Sebastian, por Jean Canavesio, 1470. Vemos os típicos gibões com as mangas armadas e também a "coquille" numa cor diferente nas calças do arqueiro do meio.

Opa
Tal como na versão para as senhoras, as opas masculinas traduziam-se em vestes longas, com bastante pano, em muitos casos com pregas e mangas exageradas, no século XV. Havia-as, igualmente, em versões diferentes.
Algumas mangas destas opas tinham uma abertura lateral que permitia retirar os braços dos punhos e andar muito na moda, ou seja, com as magas a descair dos ombros.
Havia, contudo, opas que se assemelhavam mais a gibões, pois eram curtos, mas em tudo iguais às opas compridas. Deixo ao leitor a decisão de colocar esta veste quer numa, quer noutra classificação. 
Le Livre d'Heures de Chevalier Étienne, 1420. Vê-se bem os dois exemplos de opas; a versão longa, atrás, em branco, e a sua versão curta, em jeito de gibão, a ser usado pelo homem que se ajoelha à frente da Virgem.


http://www.siue.edu/COSTUMES/PLATE23DX.HTML
(Imagem retirada de Braun&Schneider. Ambos os homens têm a tal opa em que se pode retirar os braços das mangas)

Tabardos
Ou talabardos. Uma outra espécie de guarda-cós maculino rico que sofreu uam evolução, tal como o saio e a camisa. No século XIII era longa, atá abaixo da canela e usada por cima do saio, enquanto que no século XV a versão era mais curta, chegando ao meio acima da coxa.
Ambos tinham a particularidade de não terem costuras laterais, mas enquanto o tabardo do século XV respeitava esta regra na totalidade, as rachas do tabardo do século XIII eram colocadas frontalmente, para permitir o manejo dos braços à frente do corpo.
O tabardo do século XV era usado com um cinto por cima.

Detalhe de quadro por Francesco del Cossa, Triunfo de Maio, 1470, Itália. Homem envergando um tabardo do século XV.