INTRODUÇÃO

Confeccionando e vendendo roupa, Tacuinum Sanitatis, 1385

A Idade Média e a sua moda evoluiram bastante nos quase mil anos que compõem este período histórico e podemos dividi-la em duas grandes partes:
1)A que vai desde o século V até ao século XII;
2)A que vai do século XII até ao século XV.


No que se refere à 1ª metade da Idade Média a moda variou pouco em relação à moda clássica (período greco-romano), ou seja, as roupas eram espécies de túnicas, bastante largas e atadas com um cinto. Lembre-mo-nos da antiga Bizâncio e do Império de Carlos Magno. Mas é daqui que vem toda a tradição de vestuário que nós identificamos como sendo “medieval”.
A parte que será referida aqui neste blog será a segunda metade da Idade Média.
Mas antes, iremos falar sobre algumas características gerais que compõem a moda deste período histórico:

As formas geométricas
Uma das várias qualidades do vestuário medieval é o de ser fácil de costurar, já que construído a partir de formas geométricas básicas, como iremos ver mais à frente. Geralmente é constituído por 2 rectangulos (que cobrem a frente e eas costas) e triangulos, também chamados godés ou nesgas, colocados dos lados do corpo (e por vezes introduzidos à frente e atrás também) e que dão a largura e a roda do vestuário. Também as mangas se baseiam em rectângulos e que, antes da introdução da cava redonda) levavam umas nesgas pequenas em forma quadrada para permitir a abertura dos braços.

As fibras naturais
Relativamente aos tipos de tecido e as fibras que o constitui, até à descoberta do petróleo e do uso deste para fazer fibras sintéticas para o vestuário, o que era usado na confecção de tecidos era o que a natureza providênciava, ou seja, as ditas fibras naturais. As mais comummente usadas na Idade Média eram: o linho e a lã. A seda, da qual se fazia também o veludo, era um tecido luxuoso na Europa medieval e só usado pelas classes ricas, já que vinha do comércio com os árabes através das rotas orientais.
Por sua vez, o algodão é um tema bastante debatido entre os especialistas, mas devemos ter em conta que a Península Ibérica era um lugar privilegiado no que se refere ao comércio e aos produtos que chegavam aos nossos mercados. Ou seja, não devemos deixar-nos influênciar por extremismos que só se reflectem para o restante da Europa e devemos aceitar o facto de que o algodão tinha presença aqui. Vindo da Índia, era algo raro e, por conseguinte, luxo, e que chegava à Europa através das rotas comercias árabes e mouras. Embora fosse um tipo de fibra mais conhecido aqui na Península Ibérica por termos contacto com o mundo muçulmano, que aqui também residia, não quer dizer que fosse algo usado em larga escala.
Para terminar o assunto fibras naturais, não nos podemos esquecer de falar também em peles. Antes que surga qualquer questão de eticidade ou de abuso dos recursos naturais, convém dizer que o pêlo do animal era aproveitado para fazer roupa e é claro que na Idade Média estes eram muito apreciados.
Ora se a lã vem da ovelha e o cabedal vem das vacas é natural que um animal que fosse caçado ou criado tivesse as suas peles aproveitados. Desde o coelho atá ao arminho, quase todos os animais peludos europeus eram usados não só para enfeitar as bordas de uma peça de vestuário, como também para forrar o interior desta.
Havia as peles que eram só para monarcas e a Nobreza (ver “Classes Sociais”), mas em geral todos os que tinham posses para adquirir peles de animais as aproveitavam, principalmente para os dias frios do Inverno.
Há um caso curioso em que o esquilo europeu foi quase caçado até à extinção porque o seu pêlo era usado até para forrar as bragas dos serviçais dos castelos ingleses.

As cores
Também as cores são um tópico essencial para se falar sobre o vestuário medieval. Elas usadas e abusadas na Idade Média. Tingiam-se os tecidos nas mais variadas cores. Só algumas é que não, como o cor-de-rosa (não se conseguia fazer o branco para tingir tecidos; só no final século XVII tal foi possível e é por isso que associamos esta cor com a moda barroca), o laranja e o amarelo forte e todas aquelas que vêm da mistura da cor branca com outras.
Em relação ao amarelo, havia algumas formas desta cor, nomeadamente a tonalidade parecida com o açafrão e uma tonalidade bem clara proveniente de fezes de pombo. O mesmo com o laranja, que era mais uma “cor tijolo” do que o que temos actualmente. E no que diz respeito aos rosas, quanto mais o tecido era tingido na mesma tintura, mais saturada a cor ficava e quanto mais aguada a tintura era, mais claro saía o tecido. Daí haver vermelhos muito parecidos com o rosa. Isto só para sublinhar o facto de que algumas cores eram mais acessíveis do que outras.
Ora, nesta sequência de ideias,  o castanho, que também era uma cor com a qual se tingiam os tecidos (isto no caso de não provir de animas com pelagem castanha) não a cor mais usada pelo povo. Quem não tinha acesso monetário a cores vestia-se com aquelas que a natureza dava: Brancos sujos. Aliás, o branco natural era a cor usada pelas viúvas que assim demonstravam o desapego pelo material durante o período de luto.
O preto como moda generalizada veio muitos mais tarde.

As classes sociais
Embora muitas das ideias que as pessoas tenham sobre a Idade Média tenham sido esclarecidas nos tópicos anteriores e outros serão esclarecidos nas página subsequentes, há mais um que convém sublinhar, já que é o ponto fulcral da sociedade medieval: A divisão desta em classes.
Que havia o Povo, o Clero, a Nobreza e uma Burguesia em ascenção, não é preciso dizer. Que também havia “classes” à margem da sociedade caracterizada pela etnicidade e pela religião das pessoas que as compunham (judeus e muçulmanos) também não é preciso dizer. O que convém referir é toda esta gente era obrigada a respeitar regras profundas dentro do feudalismo em que viviam e isto, claro, que também afectava o vestuário e o que cada um podia e não podia usar. A estas regras chamamos Leis Sumptuárias.
Há vários exemplos destas em toda a Europa medieval: Havia certos tecidos só para a Nobreza, outros só para judeus; havia cores que só os monarcas podiam usar e o resto da população não; há mesmo o caso de em Paris de meados do século XIV as prostitutas da cidade serem obrigadas a pintar o cabelo de vermelho para se separarem visualmente do resto da população feminina.
Para exemplo de uma lei sumptuária temos uma que foi escrita em 1363 na Inglaterra (retirada do livro “The time Traveller's Guide to medieval England”, por Jan Mortimer), em que vêm associadas as restrições de uso de certos tecidos ao estatuto social das pessoas do seguinte modo:
  • Lordes com propiedades no valor de 1000 libras anuais e as respectivas familias não tinham restrições no que poderiam usar;
  • Cavaleiros com propriedades no valor de 400 marcos anuais e as respectivas familias podiam usar o que quisessem, menos peles de doninha, arminho ou roupas feitas com pedras preciosas, com excepção das jóias nos penteados das senhoras;
  • Já um cavaleiro com propriedade de valor de 200 marcos anuais e as respectivas familias não deviam ultrapassar os 6 marcos na compra de tecidos por cada peça de roupa, nem usar tecidos com fios d'ouro nos mantos, para além de outras restrições;
  • E no fundo da lista temos 2 casos:
  • os serventes e suas familias, que deviam usar tecidos que não excedessem os 2 marcos, nem ouro, prata, bordados, seda, artigos esmaltados, e as senhoras não deviam usar véus que custassem mais que 12 moedas;
  • e para carregdores, trabalhadores da terra, pastores e guardadores de gado, leiteiras e todos aqueles que não tivessem mais que 40 shillings de propriedade não deviam usar tecidos para além de 12 moedas por medida e só deviam usar cintos de corda de linho.
Outro factor maracante na distinção das classes é o tipo de vestuário e a quantidade e a qualidade do pano
usado para o confeccionar. Alguém que trabalha o dia todo no campo ou numa loja usa tecidos de qualidade inferior e sem enfeites, porque é mais prático, é claro. Por sua vez, alguém pertencente á Nobreza e que tem quem faça por si, pode usar tecidos e enfeites muito mais ricos e, já para não afalar, vestes com muito mais pano e bem mais compridas do que pessoas de classes inferiores. Aliás, o vestuário era algo que demarcava as classes: Quem usava vestes ricas e compridas só poderia ser de classes sociais superiores. É por isso que vemos nas iluminuras e nas miniaturas algumas pessoas retratadas com vestes exageradas. Isto não quer dizer que toda a gente se vestia assim na Idade Média.


Nas próximas páginas iremos falar mais detalhadamente sobre as varias camadas de roupa que se usavam na Idade Média e que, no caso das mulheres, chegavam a ser 3 inteiras.

Codex Manesse, século XIV. Um perfeito exemplo das cores e dos padrões que o vestuário medieval podia levar. É claro que aqui está representada a corte do monarca, mas mesmo assim, não deixa de ser exemplo de uma parte da sociedade medieval.